A UICN celebra a definição de agenda para a proteção dos corredores mundiais de espécies migratórias na COP15 da CMS
Após a histórica adoção do Plano Estratégico de Samarcanda para Espécies Migratórias 2024–2032, a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS COP15), realizada em Campo Grande, Brasil, marcou um passo decisivo ao estabelecer um roteiro claro para a implementação efetiva do plano. Enquanto a COP14 lançou as bases políticas, os resultados alcançados no Brasil transformaram compromissos globais em mandatos concretos, definindo pontos críticos para o monitoramento, a prestação de contas e a cooperação transfronteiriça necessária para salvaguardar os corredores migratórios do planeta.
De 23 a 29 de março de 2026, a CMS COP15 reuniu governos, organizações internacionais, cientistas, ONGs de conservação, povos indígenas e comunidades locais sob o tema “Conectando a Natureza para Sustentar a Vida”. Com mais de 130 Partes participando das negociações, a conferência abordou as crescentes pressões decorrentes da degradação, fragmentação e superexploração de habitats, bem como das mudanças climáticas, sobre espécies que dependem de ecossistemas interconectados entre países e continentes.
Do planejamento à ação
A adoção de uma agenda global para implementar o Plano Estratégico de Samarcanda constituiu uma conquista importante, tendo as Partes concordado em integrar as metas e objetivos relativos às espécies migratórias nas estratégias e políticas nacionais de biodiversidade. Para garantir a prestação de contas e resultados mensuráveis, o Secretariado da CMS recebeu o mandato de apoiar a implementação, o monitoramento e os indicadores, devendo os progressos serem analisados em futuras reuniões da COP.
A UICN contribuiu ativamente ao longo da reunião e convocou as Partes a reforçarem a conservação das espécies migratórias, protegerem a conectividade ecológica e alinharem os esforços com o Quadro Global de Biodiversidade. As Partes concordaram com essas prioridades, inclusive por meio do fortalecimento da cooperação entre a CMS e a Convenção sobre Diversidade Biológica.

Delegação da UICN na COP15 da CMS
Foto: © Qiulin Liu
“Essas decisões garantem que a proteção da vida selvagem não seja um esforço isolado, mas um componente central das estratégias de biodiversidade tanto em nível global quanto nacional”, afirmou Gabriel Quijandría, Diretor Regional da UICN para a América do Sul. “A UICN segue pronta para continuar trabalhando com as Partes, o Secretariado da CMS e os parceiros para apoiar a implementação, ações baseadas na ciência e resultados concretos de conservação nas regiões”.
“A implementação bem-sucedida do Plano Estratégico de Samarcanda dependerá de uma base científica sólida, colaboração e expertise. A Comissão de Sobrevivência de Espécies da UICN (IUCN SSC), por meio de sua rede global de Grupos de Especialistas, está comprometida em apoiar as Partes e a CMS com o melhor conhecimento, dados e ferramentas disponíveis para orientar as ações de conservação. Ao fazer a ponte entre ciência, políticas e prática, a SSC pode ajudar a garantir que os compromissos assumidos na COP15 da CMS se traduzam em resultados efetivos para as espécies migratórias em toda a sua área de distribuição”, afirmou Vivek Menon, Presidente da IUCN SSC.

Painelistas do evento paralelo “Connecting landscapes for people and wildlife: CITES–CMS African Carnivores Initiative”
Foto: © Qiulin Liu
Outras decisões importantes e destaques gerais
Outros resultados importantes incluem decisões fundamentais sobre conectividade ecológica, avaliação de impacto para espécies migratórias e áreas de conservação transfronteiriças, reforçando a importância de habitats interligados e rotas migratórias para a biodiversidade em todo o planeta. Além disso, uma ampla gama de decisões aborda as principais pressões que afetam as espécies migratórias, com resultados particularmente significativos em relação às ameaças marinhas, de água doce e relacionadas ao clima. As Partes concordaram em utilizar “Áreas Importantes” baseadas em dados científicos, tais como Áreas-Chave de Biodiversidade, para orientar o planejamento espacial marinho, as áreas protegidas e as ações de conservação.
Com o apoio da UICN, a Conferência também abordou a energia renovável como uma questão transversal no cerne de uma transição energética positiva para a natureza, enfatizando que a infraestrutura de energia renovável deve ser cuidadosamente planejada para evitar a interrupção das rotas migratórias.
Entre os resultados relativos à conservação das espécies, destacam-se a adição ou atualização de 40 espécies, subespécies e populações nos Apêndices I e II da CMS, incluindo a guepardo, a hiena-riscada, a ariranha, várias espécies de tubarões, peixes de água doce e aves migratórias. Por fim, foram aprovadas 15 novas “Ações Conjuntas” para espécies como chimpanzés, golfinhos, morcegos, tubarões e aves marinhas, enquanto foram adotados 10 planos de ação novos ou atualizados focados em espécies.
Já no Segmento de Alto Nível, um dos principais destaques foi a adoção da Declaração do Pantanal, que clama por uma cooperação internacional mais forte, maior apoio financeiro e ações urgentes para lidar com as mudanças climáticas, a perda de habitat, a poluição e os impactos da infraestrutura. A declaração também destaca a importância das zonas úmidas – incluindo o Pantanal brasileiro – como habitats essenciais para espécies migratórias.
Os resultados da COP15 da CMS reforçam fortemente o trabalho contínuo da UICN em toda a União, incluindo a implementação das Resoluções do Congresso Mundial de Conservação da UICN sobre o reconhecimento de corredores ecológicos, a promoção de infraestruturas favoráveis à vida selvagem e o fortalecimento da conservação transfronteiriça.

Participantes do painel “What the Tech?! Digital Innovation for Migratory Species and Protected Area Conservation”.
Foto: © Qiulin Liu
Acelerando a conservação de ecossistemas e espécies migratórias
Além da sessão plenária, a UICN demonstrou como o conhecimento técnico se traduz em políticas e ações no terreno por meio de mais de 10 eventos paralelos e sessões de alto nível, abrangendo quatro áreas para acelerar a conservação de ecossistemas e espécies migratórias.
Em primeiro lugar, a União destacou a importância de fortalecer a governança em múltiplos níveis ao abordar ameaças globais, como a mineração em águas profundas e a perda de habitat, posicionando as zonas úmidas como ecossistemas críticos para a cooperação internacional. Em segundo lugar, ressaltou como ampliar a inovação digital por meio de parcerias estratégicas, como a iniciativa Tech4Nature no Brasil, para promover a tomada de decisões baseada em evidências.
A UICN também enfatizou a necessidade de promover uma conservação de alta qualidade, integrando a Lista Verde da UICN e as reservas privadas ao planejamento territorial para garantir a conectividade ecológica e infraestruturas favoráveis à vida selvagem. Por meio do envolvimento na Iniciativa Conjunta CITES–CMS para Carnívoros Africanos (ACI), a UICN também destacou a importância da conservação coordenada em escala de paisagem (landscape-level), do fortalecimento da cooperação transfronteiriça e da mobilização de parcerias e financiamento sustentável para ampliar as ações de conservação para carnívoros africanos em toda a sua área de distribuição. Por fim, a UICN demonstrou como está fortalecendo a liderança subnacional, onde cidades e governos locais atuam como uma ponte vital para integrar espécies migratórias às estratégias nacionais de biodiversidade.

Gabriel Quijandría, Diretor Regional para a América do Sul, com delegados do ICMBio, ECOA e SAVE Brasil
Foto: © Qiulin Liu